Tentei penhorar o colar da minha avó para pagar o aluguel, mas o dono da loja de penhores empalideceu e disse que estava me esperando há vinte anos…
Pensei em abrir mão da última coisa importante que eu tinha para conseguir sobreviver mais um mês. Eu não fazia ideia de que entrar naquela loja de penhores revelaria um passado que eu nem sabia que me pertencia.
Depois do meu divórcio, fiquei praticamente sem nada.
Um telefone quebrado e quase sem bateria. Duas sacolas de lixo cheias de roupas de que eu não gostava mais. E algo que jurei que jamais jogaria fora: o colar da minha avó.
Era só isso.
Meu ex-marido não apenas me abandonou, como também se certificou de que eu não tivesse ninguém em quem me apoiar. O aborto espontâneo já havia me deixado exausta e, uma semana depois, ele me deixou por uma amante mais jovem.
Durante semanas, segui em frente por puro instinto. Trabalhei em turnos extras em restaurantes, contando cada gorjeta como se fosse oxigênio. Mas a teimosia tem limites.
Certa noite, ao voltar para casa, encontrei um aviso vermelho colado na porta do meu apartamento: ÚLTIMO AVISO.
Fiquei encarando o papel, esperando que ele desaparecesse se eu não me movesse. Mas não desapareceu.
Eu não tinha dinheiro para pagar o aluguel.
Apenas para fins ilustrativos.
Lá dentro, tirei uma velha caixa de sapatos do fundo do armário. Embrulhado em um cachecol estava o colar antigo que minha avó Ellen havia me dado antes de morrer. Naquela época, eu mal tinha idade suficiente para compreender seu significado, mas o guardei com carinho por mais de vinte anos como uma lembrança do amor dela.
Em cada mudança, separação e fase da minha vida, ele permaneceu ao meu lado.
Agora, em minhas mãos, a sensação era diferente: mais pesado, mais quente, como se soubesse o que eu estava prestes a fazer.
Bom demais para a vida que eu levava.
— Desculpe, vovó — sussurrei. — Só preciso de um pouco de tempo. Talvez isso me garanta mais um mês. Chorei a noite toda; tirava o colar, colocava-o de volta, dizendo a mim mesma que encontraria outra solução. Mas o dia amanheceu mesmo assim.
Fui até o centro, à casa de penhores — aquele tipo de lugar aonde só se vai quando não resta outra opção.
A campainha acima da porta tocou assim que atravessei a entrada.
Um senhor de idade estava atrás do balcão, com os óculos apoiados no nariz.
— Posso ajudá-la, senhora? — perguntou ele.
Hesitei por um momento e depois coloquei o colar sobre o balcão, como se temesse que ele pudesse morder.
— Preciso vendê-lo.
Ele mal lançou um olhar para a peça antes de suas mãos paralisarem. Seus olhos fixaram-se no colar, e a cor sumiu de seu rosto tão rapidamente que pensei que ele fosse desmaiar.
— Onde você conseguiu isso? — sussurrou.
— Era da minha avó — disse eu, irritada com a demora. — Olha, só preciso do suficiente para pagar o aluguel.
— Qual era o nome dela?
— Merinda. Merinda L. Por quê?
Ele abriu a boca, depois a fechou novamente, antes de recuar cambaleando, como se tivesse levado um choque elétrico do balcão.
— Senhorita… você precisa se sentar — murmurou, agarrando-se à borda do balcão.
Meu sangue gelou.
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— É falso? — perguntei nervosamente.
— Não — sussurrou. — É verdadeiro.
Então, com os dedos trêmulos, pegou um telefone sem fio e discou um número de discagem rápida.
— Eu o tenho — disse rapidamente. — O colar. Ela está aqui.
Um calafrio percorreu minhas costas.
— Para quem você está ligando? — perguntei em tom imperativo.
Ele cobriu o fone com a mão, com os olhos arregalados.
— Senhorita… a Mestra está procurando por você há vinte anos! Antes que eu pudesse reagir, ouviu-se o clique de uma tranca vindo de trás da sala de exposições. A porta dos fundos se abriu de repente.
E, quando vi quem entrou, perdi o fôlego.
“Desiree?!”
Ela parecia mais velha agora — o cabelo estava prateado, os traços mais delicados —, mas se comportava exatamente como eu me lembrava: ereta, serena, com uma elegância natural.
Era a melhor amiga da minha avó.
Desiree vinha me visitar com frequência, trazendo doces e contando histórias que eu era pequena demais para compreender. Fazia anos que eu não a via.
No instante em que seus olhos pousaram em mim, algo se rompeu dentro dela, como se tivesse tentado manter a calma por tempo demais.
— Eu estava procurando por você — disse ela em voz baixa, e me abraçou.
Quente. Familiar. Inesperado.
A princípio fiquei rígido, mas depois fui relaxando aos poucos.
— O que está acontecendo? — perguntei quando ela se afastou.
— Você se parece muito com ela — murmurou.
“Vovó?”
Ela assentiu e depois se virou para o homem. “Tudo bem, Samuel. Eu cuido disso.”
Ele assentiu rapidamente, aliviado.
Franzi a testa. “Por que ele a chamou de ‘a mestra’?”
Desiree suspirou aliviada. “Porque este lugar é meu, assim como outros três do outro lado da cidade. Ele diz que ajo como uma chefe, mas não sou.”
Apenas para fins ilustrativos.
Isso me surpreendeu, mas não tanto quanto o que aconteceu depois.
O olhar dela pousou no colar.
— Foi por isso que eu estava procurando você — disse ela em voz baixa.
— Por quê? — perguntei.
Ela apontou para uma cadeira. “Sente-se, por favor.”
Obedeci, perturbada pelo tom dela.
“O que estou prestes a lhe contar… sua avó nunca teve a oportunidade de explicar.”
Uma sensação de frio percorreu meu corpo.
— Ela não era sua avó biológica — disse Desiree com doçura.
Balancei a cabeça negativamente. “Não. Ela me criou. Ela…”
— Eu sei — disse Desiree rapidamente. — E ela amava você. Isso era verdade. Tudo.
“Então, o que você está dizendo?”
“Anos atrás, sua avó encontrou você.”
Fiquei sem reação.
“Encontrou?”
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— Entre os arbustos — disse Desiree em voz baixa. — Perto do caminho que ela costumava fazer para voltar para casa. Você era um recém-nascido, embrulhado com cuidado, com aquele colar no pescoço.
Olhei fixamente para ela.
“Não é possível.”
— Sim — disse ela. — Foi ela quem trouxe você. Não sabia o que fazer. Não havia bilhete, nenhuma identificação. Apenas você… e aquele colar.
— Ela tentou encontrar sua família — continuou Desiree. — Nós duas tentamos. Consultamos registros, fizemos perguntas, seguimos todas as pistas. Mas não encontramos nada. Nem nomes, nem detalhes. “Então, simplesmente… ele ficou comigo?”
“Ele fez tudo certo”, garantiu Desiree. “Os trâmites legais, a papelada. No final… você passou a ser dele.”
Um nó se formou na minha garganta. “Por que você não me contou?”
“Porque eu não queria que você se sentisse deslocada.”
— E o colar? — perguntei.
“Foi aí que tudo mudou”, disse Desiree. “Não era um objeto comum. O design, o trabalho artesanal… sugeriam algo antigo, algo precioso. Decidimos investigar mais a fundo.”
“O que você descobriu?”
“Não é o suficiente”, admitiu ela. “Mas é o bastante para saber que vinha de um círculo muito íntimo. O tipo de gente que não perdoa coisas assim… a menos que algo realmente grave tenha acontecido.”
Um arrepio percorreu minhas costas.
— Sua avó me ajudou a abrir minha primeira loja — continuou Desiree. — Foi assim que tudo começou. Com o tempo, expandi os negócios, fiz contatos e continuei observando discretamente.
“Por mim?”, perguntei.
— Pelo colar — corrigiu ela. — Porque sabíamos que, um dia, ele poderia nos levar de volta à sua família.
“E, depois que sua avó desapareceu, continuei procurando por ela durante 20 anos. Assumi isso como minha responsabilidade. Eu não ia deixar essa história ficar inacabada.”
Engoli em seco. “O que acontece agora?”
“Depende de você”, disse ela.
“Você realmente acha que pode encontrá-los?”
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