O riso deles, quando está previsto uma pegadinha, é quase como um mecanismo de defesa contra a dor. Laura, de dez anos, enfrentou uma batalha diferente. Desde que Claris morreu, ela arrancou tufos de cabelo. Há falhas no couro cabeludo, marcas de ansiedade que nem mesmo os psicólogos mais caros procuram controlar. Julia, de nove anos, sofre ataques de pânico, principalmente à noite.Às vezes, ouço-a gritar o nome da mãe do outro lado do corredor e fico paralisada em frente à porta, sem saber como ajudá-la. Sofia, de oito anos, voltou a fazer xixi na cama. Não por acidente, mas por medo, devido à regressão emocional que sua mente não consegue controlar. E, por fim, Isabela, minha filhinha de três anos, que mal fala desde que perdeu a mãe, mal sussurra uma ou duas palavras e só vem quando adormecer.
Hoje, enquanto observava pela janela a última babá sair correndo, com o uniforme rasgado e o cabelo tingido de verde — resultado de uma brincadeira cruel dos gêmeos —, senti uma mistura de vergonha e desespero. 37 em duas semanas. 37 mulheres que disseram a mesma coisa antes de irem embora. Essas meninas não precisam de disciplina; elas precisam de uma mãe, e eu não tenho uma para dar.
Meu assistente pessoal, Augusto, ligou enquanto eu ainda olhava para o táxi dentro do carro. “Sr. Mendoza, não há mais agências na lista. As últimas nos classificaram como um caso perdido.” “Então esgotamos todas as opções profissionais”, respondeu apaticamente. “Há uma alternativa, senhor.”
Podemos contratar uma governanta, pelo menos para manter a casa funcionando enquanto buscamos outra solução. Suspiro. Naquele momento, qualquer coisa que restaurasse ao menos um mínimo de ordem parecia um milagre. Vamos lá. Qualquer pessoa que concorde em vir. A poucos quilômetros dali, na rotatória, uma jovem chamada Luía Oliveira acordada às 5h30 da manhã. Ela tinha 25 anos e apresentava o cansaço permanente de quem trabalha por dois e sonha por dez. Seu pai era um pedreiro aposentado.
A mãe dela vende doces. Desde os 18 anos, ela fazia faxina para pagar as aulas noturnas de psicologia infantil. Naquela manhã, enquanto se preparava para pegar três ônibus para o trabalho, recebeu um telefonema da agência para um funcionário qualificado. “Luia, temos uma emergência.”
Mansão no Morumbi. Tarifa dupla. O cliente precisa de alguém hoje. Dupla?, perguntou ele, olhando as contas sobre a mesa. Mande-me o endereço. Chego aí em duas horas. Ele não sabia, é claro, que estava indo para uma casa de luto e fúria, palco da revolta de seis garotas que declararam guerra ao mundo. Duas horas depois, o táxi parou em frente aos altos fechados de ferro forjado da propriedade Mendonza Albuquerque. Luía desceu as escadas vestida simplesmente com sua blusa branca e jeans surrados. Carregava uma mochila velha, seus cabelos cacheados estavam presos em um coque improvisado, e seus olhos escuros atentos observam tudo sem medo. Da janela do andar de cima, seis pares de olhos a observaram. “Mais uma vítima”, murmurou Mariana em tom gélido. As gêmeas riram de Coro.
“Vamos ver quanto tempo isso dura.” Quando a funcionária cruzou a porta, Ricardo a cumpriu no escritório. Ele tentou explicar, mas não sabia por onde começar. “A casa precisa de uma limpeza profunda”, disse ele finalmente. “E as meninas estão passando por um momento difícil. O Sr. Augusto me disse que seria apenas para limpeza, não para cuidar das crianças.” “Exatamente, nada mais.
